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sexta-feira, 27 de abril de 2012

(Os pés lêem uma odisseia de rastos e ruminações)
As folhas esquecem-se das árvores
esquecem-se
fogem das árvores
esquecem-se
rugem no chão. Mariposas
dobradas em árvore
esquecem-se das folhas
rugem
fogem do chão
esquecem-se
rugem nas árvores
fogem
esquecem-se do chão
esquecem-se

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

denotam-se
as giestas e
os contrastes
de todas as madrugadas
em flor.
teimosamente
revemos os espaços
– os de dentro, os de fora –
tentamos esquecer os urros
daquele bicho dormente
que suspirando
despe as praias e alamedas.
sim, é verdade,
somos, sistematicamente
atacados pelas gramáticas;
mas falemos antes
dos inícios
e da palma da minha mão
onde habita uma aurora
a espernear, enraivecida
à espera que a noite
lhe faça romper as searas.
no parapeito da janela
ofega, esfomeado
o dia limpo de hoje.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Frenética incidência

Desnorteemo-nos hoje, sem falta
na melancolia ascética dos dias grosseiros
que rudes passam a galope solto
trote trote trote. Um círculo de sangue.
Fixemo-nos no ângulo morto do espelho e
sigamos, noite adentro. São dez horas.
O coração bate, cem vezes por minuto
esquecido de outras síncopes bate,
pequeno e freneticamente belo.
Sigamos viagem, ângulo adentro,
ao longo das árvores que não são árvores
mas madeixas brandas de criança feliz.
Em suas mãos sonoras, caixa de música sem
bailarina, encontremo-nos hoje, sem falta,
e dancemos os dois na nossa terna sanidade
até engessarmos todas as cartas e bilhetes
de amor. Hipnoticamente olvidados
das minudências encravadas na epiderme,
dancemos, e sigamos em carne viva
até ao vértice do ciclone
onde calmamente nos sentaremos
contemplando, a melódica
explosão das estrelas.