quarta-feira, 30 de março de 2011


To love makes one solitary, she thought.

Virginia Woolf, Mrs Dalloway

Foto: Virginia Woolf , usando um vestido da sua mãe

terça-feira, 22 de março de 2011


Poetry may or may not work out its own salvation in a man [or in a woman], but it comes only to those in dire imaginative need of it, though it may come then as a terror.

Harold Bloom, The Anxiety of Influence

quinta-feira, 17 de março de 2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

Escrevo solo e digo nuvem

O rosto enfiado na terra
escrevo solo e digo nuvem.
Solo & subsolo, conluio
amoroso de asas e raízes.

O silêncio conspira,
até a viração da tarde
cessou. Já mal suspira.
Escrevo solo e o peito arde.

O rosto guardado na terra,
nada me lembra ou esquece.
Escrevo solo. Sombra
entre sombras, o dia amanhece.

Manhã de maio semeia,
não choro nem sinto.
Digo nada – acorde esvaído
num sonho indistinto.

O rosto abrigado na terra,
mal sei do lamento das folhas.
Mal sei, mal sim, mal não:
não sei onde abrigar o coração.

Carlos Felipe Moisés, “Sombra”

Os pássaros certos



Trouxe o canto
Não é claro, mãe
Mas tem os pássaros certos
Para seguir a queda dos dias
Entre o meu tempo e o teu.

Ana Paula Tavares
Imagem: Thomas Allen

quinta-feira, 3 de março de 2011

é provável que ela venha daqui a pouco. o dia foi um tecto azul celeste quase em quebranto: não é por aí que ela costuma entrar? até lá deleito-me, nas simetrias gélidas do corpo. as mãos pelos pés. dois braços (vazios, em fuga). entendo-me na longitude glaciar da cintura. tepidamente, chega ela. arfa mansa, debaixo dos lençóis, as suas mãos crescendo dentro das minhas. erguida em ganas de violino, borda-me a almofada com fio de prata. as suas mãos lembrando-me das minhas. e isto, só gente avulsa é que entende.   

terça-feira, 1 de março de 2011

A light in the moon



The care with which the rain is wrong and the green is wrong and the white is wrong, the care with which there is a chair and plenty of breathing.

Gertrude Stein, Tender Buttons
Foto: Maia Flore

sábado, 26 de fevereiro de 2011


Porque eu também tenho uma missão na vida: anotar os lugares de areia branca, voo rasante de passarinho, todos os modos do sol. Tenho tanto que fazer no almoxarifado da humanidade.

Adélia Prado, Solte os cachorros

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A fundo perdido

When two people fall in love, and begin to feel that they are made for one another, then it is time for them to break off, for by going on they have everything to lose and nothing to gain.
Søren Kierkegaard


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011


Enlouquecidos pela dor
Cobrimo-nos com o barro das palavras

Ana Hatherly, “Utopias privadas”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Para uma espécie de corpo inenarrável


Minha irmã é que nasceu a falar
de um derramamento colossal
da solidão.

As mulheres, é espesso perfume lembrá-lo,
têm ângulos ausentes no que vêem e no que falam nas ocultas

nebulosas do seu corpo
o amante adivinha como um homem traído.

Assim assim mesmo: nessa penumbra de metal candente
anseia-se, decai a ansiedade

e a mulher (Ila, imã de Ilo o mundo, a minha irmã),
que é repouso vasto enfurecido
corre a apanhá-los.
ao espelho, à flor,
da cintura irrompendo como de um jardim
para uma espécie de corpo inenarrável.

Luiza Neto Jorge, “Recanto 13”
Foto: Erin Mulvehill

domingo, 13 de fevereiro de 2011


We’re all products of what we want to project to the world. Even people who don’t spend any time, or think they don’t, on preparing themselves for the world out there—I think that ultimately they have for their whole lives groomed themselves to be a certain way, to present a face to the world.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Habito um corredor onde os relógios pararam nas 15:20. Todos os dias leio demais. A escrita vem sempre tarde, e às postas. O corredor que habito fumega de gente, homens de barba antiga, de vez em quando um rapaz daninho, muitas mulheres que por ali passam das oito às quatro, à pressa, ansiosas pelas casas com panelas de arroz agulha. Os dias pairam iguais no centro do corredor, uma bolacha redonda que se vai ruminando em volta. O caminho, esse, é só um, em frente e ao comprido. Se por acaso segue ao redor das papoilas, logo se malfada. Às vezes ataca-me como uma serpente, e mal ele sabe o quanto eu quero o seu veneno. Leio demais. A escrita não vem. Doem-me as mãos, de tanto vasculhar nas goelas dos dias. O coração bate em lugares estranhos. São três facas e uma morte à espera. Arde lenta, a tesoura nupcial, visível mas embutida no pulso. Desengane-se quem aqui procura a redenção. Perseguir ouriços mata. A escrita não vem. Valham-me os braços caravela – lá fora há-de haver vento, e as panelas têm tanto arroz.      

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A Poet is the most unpoetical of any thing in existence, because he has no Identity – he is continually in for – and filling some other Body – The Sun, the Moon, the Sea and Men and Women who are creatures of impulse are poetical and have about them an unchangeable attribute – the Poet has none; no identity – he is certainly the most unpoetical of all God’s creatures.

John Keats, “A Letter to Richard Woodhouse” (1818)

(Já agora, Cf. ...)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011



This otherness, this
“Not-being-us” is all there is to look at
In the mirror, though no one can say
How it came to be this way. A ship
Flying unknown colors has entered the harbor.

John Ashbery, “Self-Portrait in a Convex Mirror”
Foto: Maia Flore

domingo, 6 de fevereiro de 2011

As palavras aproximam (o silêncio ainda mais...)


Amando muito muito
ficamos sem palavras


Ana Hatherly, "As palavras aproximam"

Foto: Lukasz Wierzbowski

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011


Hoje às dez horas pinto as mãos. De todas as cores, não de nenhuma. Vou lentamente afogá-las num tinteiro. Primeiro os dedos, depois as covas, as linhas e os montes, até ao pulso. Até ao osso. Frio. Há-de ser fria, a tinta, e frias, as mãos, pois deixarão de ser mãos de massa e de flanela. Hão-de ser mãos de corte. Mãos de faca. Não mais roubadas às horas de fremente urdidura. Serão invisíveis de tão visíveis e sonoras. Indistintas das paredes, do silêncio, das gerberas nessa jarra, do negrume seco da janela. De ti. Da tua pele. Todas as cores, não de nenhuma. E vão gritar, as minhas mãos. E vão pingar, estalactites cor vertigem violeta.
Hoje. De todas as cores. 

Foto: Hernan Marin

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

fugiram-me um dia
os braços até ti
onde ficámos
deitados sobre a tarde
em que todas as lentidões
são bruscas apneias

as nossas mãos de barro
derreteram-se em cristalinas
placas tectónicas, a fingir
pássaros num desvio alado

ouves? somos nós
aqueles que trauteiam oceanos
enquanto falam
sobre sinos e visões periféricas
ao menos

fugiram-me um dia
os braços até ti
onde ficámos
suspensos
sobre um chapéu de criança
soprado ao delírio do vento

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


It is enough to make you understand why most languages have a word like "soul." There are various degrees of death, and time spares us none of them. Yet something endures, for which a word is needed.


Ursula K. Le Guin, "The New Atlantis"

Foto: Sanna Lehto