quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

The poem is you

This poem is concerned with language on a very plain level.
Look at it talking to you. You look out a window
Or pretend to fidget. You have it but you don’t have it.
You miss it, it misses you. You miss each other.

The poem is sad because it wants to be yours, and cannot.
What’s a plain level? It is that and other things,
Bringing a system of them into play. Play?
Well, actually, yes, but I consider play to be

A deeper outside thing, a dreamed role-pattern,
As in the division of grace these long August days
Without proof. Open-ended. And before you know
It gets lost in the steam and chatter of typewriters.

It has been played once more. I think you exist only
To tease me into doing it, on your level, and then you aren’t there
Or have adopted a different attitude. And the poem
Has set me softly down beside you. The poem is you.

John Ashbery, "Paradoxes and Oxymorons"

terça-feira, 15 de novembro de 2011

“A minha casa tinha um segredo escondido no fundo do coração”


Bem sei que a culpa é minha. Primeiro construo casas, depois dedico-me a decorá-las e a fazer delas casas, apenas para depois as abandonar. Ainda por cima, vou-me embora e deixo portas e janelas escancaradas, tudo à mostra à mão de semear. Nada de especial valor, no entanto. Um candeeiro partido. Um livro velho. Uma chave enferrujada. Só minudências e insignificâncias, mas que alguém leva para o aconchego da sua casa habitada e que, à luz de uma surpreendente alquimia, consegue transfigurar este meu espólio demente num tesouro cósmico refulgente.
Para mim, há-de ser sempre um candeeiro, um livro, e uma chave, ainda por cima quebrados e comidos pelo tempo. Por me terem outrora habitado (durante um dia, talvez ainda agora), estão todavia inevitavelmente dentro de mim, tal como acontece com todas as coisas que nos entram pelas fissuras do corpo – segredos escondidos no fundo do coração. Nada disto é meu, mas apenas eu conheço a história do candeeiro que se partiu, só eu sei do cheiro do livro quando o folheei pela primeira vez, ou do brilho que a chave tinha antigamente – e que bem abria ela portas e janelas.
Com o tempo, aprendemos a entrar na casa dos outros, mesmo quando abandonadas. Aprendemos a deixarmo-nos à porta, a sermos espaço para a batida do relógio (ouve, como ele bate ainda), a medirmos a espessura do silêncio e o quebranto das paredes. O que aparenta ser passividade ou receptáculo mais não é do que abandonarmo-nos à música de um rádio antigo e deixarmo-nos tocar no mais fundo e límpido que, ainda assim, persiste. É lembrarmo-nos de nós nos outros pela mão de uma música que passa a ser nossa, como se alguém nos escondesse um segredo no fundo do coração.
Na minha casa, há-de haver sempre música, mesmo no silêncio. Deve, no entanto, ser ouvida com algum cuidado – os segredos esboroam-se com tanta (demasiada) facilidade.          

sábado, 24 de setembro de 2011

Se lhe pega a poesia

Nosso é só o espinho, o estrume, a unha cheia de terra. Sabendo que me ultrapasso eu digo a você, pra celebrar nosso caso, como disse o chefe islamita em discurso ao bispo, pra celebrar a surpreendente união de maometanos e cristãos numa comunidade indonésia, “nosso amor é como bosta de búfalo, cai mas não racha.” Como vê, nem o excremento é nosso, se lhe pega a poesia. Pura graça o que nos move. Vou é chorar de tanta boa pobreza.

Adélia Prado, Solte os chachorros

terça-feira, 20 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

My own foreigness to myself


I am not fully known to myself, because part of what I am is the enigmatic traces of others.

Judith Butler, Precarious Life: the Powers of Mourning and Violence (2004)
Photo: Maura Sullivan

A craving for extraordinary incident

The most effective of these causes are the great national events which are daily taking place, and the increasing accummulation of men in cities, where the uniformity of their occupations produces a craving for extraordinary incident, which the rapid communication of intelligence hourly gratifies.

William Wordsworth, Preface to Lyrical Ballads (1800)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

...a cityscape is not made of flesh*


Photo:Vincenzo Balocchi
* Susan Sontag, Regarding the Pain of Others (I beg to differ...)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Só porque algum nome lhe havíamos de dar

. . . a nós o que nos ilude é esta linha de vivos em que estamos, que avança para isso a que chamamos futuro só porque algum nome lhe havíamos de dar, colhendo dele incessantemente os novos seres, deixando para trás incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de mortos para que não saiam do passado.

José Saramago, A jangada de pedra

terça-feira, 6 de setembro de 2011

I feel always tender in the wrong places*


Photo: Brooke Shaden
* Audre Lorde

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Y todo para sorpresa de nuestra ignorancia

La infancia no es un lago imperturbable
                     no tiene la lisura de un plato
                     es un valle
                     bordeado de irregulares riscos.

Caemos y ascendemos en ella
                     y todo para sorpresa
                                de nuestra ignorancia.

La infancia ataja
                     ataja todo
                                cualquier pelota.

Su decir, es un decir sí…

Hanni Ossott

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

The garden flew round with the angel,


The angel flew round with the clouds,
And the clouds flew round and the clouds flew round
And the clouds flew round with the clouds.

Is there any secret in skulls,
The cattle skulls in the woods?
Do the drummers in black hoods
Rumble anything out of their drums?

Mrs. Anderson's Swedish baby
Might well have been German or Spanish,
But that things go round and again go round
Has rather a classical sound.

Wallace Stevens, "The Pleasures of Merely Circulating"
Photo: Maia Flore

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Of instruction which does not become life

Modern man... has become a strolling spectator and has arrived at a condition in which even great wars and revolutions are able to influence him for hardly more than a moment... Thus the individual grows fainthearted and unsure and dares no longer believe in himself: he sinks into his own subjective depths, which here means into the accumulated lumber of what he has learned but which has no outward effect, of instruction which does not become life. 

Friedrich Nietzsche, Untimely Meditations (1876: só o emprego do masculino está desactualizado, porque o argumento...)
A noite faz-se no regresso às palavras simples, de cadência húmida e escura. Recolhe-se na hipotenusa das constelações, buscando o conforto na cratera do sono, onde habitam o sangue e a terra primeva.
Um resto de cinza amniótica.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

De pedra

". . . quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver."

José Saramago, A jangada de pedra

sábado, 23 de julho de 2011

Da alma

Ingmar Bergman, Persona (1966)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"I had no anxieties about artistic failure"

 

Na verdade, esquecera-se da perfeita dimensão conjugativa dos verbos, e os dedos estranhavam-lhe agora as arestas da sintaxe. A escrita encolhera-se e ficara de trazer por casa, pateta e triste, fechada num amuo de limpar os cantos. Os abismos da tarde, esses, passaram a fingir-se num vestido onde por vezes lhe dançava o Verão. Era Inverno.
A parca lucidez talvez viesse da atenção excessiva dada às coisas – toda ela das coisas, nas coisas – ou então daquele calor que subitamente se abatera sobre a terra, murchando as gentes num trigo frágil.
I’ll think about that tomorrow.
Por ora, os dias seriam passados de pé, como uma árvore sem ramos subitamente habitada por um formigueiro intravenoso.
“Para quando a escuridão?”
Como se o caminho indicado pelos joelhos fosse capaz de se desdobrar numa calçada de açucenas, tão mais sonante ao redor de si mesma.      

Foto: Maura Sullivan

terça-feira, 19 de julho de 2011

Because of the alarming nature of darkness

The lighting must be better protected than now. The lamps must be enclosed in a steel grid to prevent their being damaged. Lights could be eliminated, since they are never used. However, it has been observed that when the doors are shut, the load always presses hard against them as soon as darkness sets in, which makes closing the doors difficult. Also, because of the alarming nature of darkness, screaming always occurs when the doors are closed. It would therefore be useful to light the lamps before and during the first moments of the operation.

... (1942)