quinta-feira, 29 de março de 2012

One Kind of Terror: A Love Poem

. . . 
I’m the sole author of nothing
the book moves from field to field


of testimony      recording
how the wounded teach each other 
. . . 


Adrienne Rich (1929 - 2012)

quinta-feira, 22 de março de 2012

In the middle of the beginning

Miranda July, It Chooses You 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Un’en’en


Lâminas de pedra e restos
de três mil anos
feitos de pedra.

cenas esculpidas
(partidas) com arpões.

desenhos às camadas:
uma herança natural
parecida com uma casa.

a mais antiga evidência
― crânios, ossos, barbas ―
são barcos numa comunidade
a partilhar carne por carbono.

mil anos para trás
e apenas um marfim complexo
camadas de terra
como um livro aberto

domingo, 19 de fevereiro de 2012

No canto dos olhos

encontrar uma facilidade
na música. as árvores.
homem. mãe. cavalo.
é assim que eles pensam:
os nossos olhos
moem carne.
é preciso o poema
no canto dos olhos.
não é indispensável.
― à janela
uma calçada de açucenas 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Shadow


Suzy Lee, Shadow (2010)

domingo, 15 de janeiro de 2012

A nossa casa

A nossa casa era feita de corredores azuis.
Ao centro uma fonte, robusta e fértil,
como uma folha metálica de Gaudí.
Como era sublime, aquela nossa
escadaria em corte de rebuçado.
Como a subi de um golpe só, os
pés quebrando-se em cada degrau,
cega às paredes pintadas de barba azul.
Como passei a carregar nas mãos
todas as nuvens dobadas num novelo escuro,
os cabelos caídos sobre as entranhas
dos caminhos. A nossa casa era feita 
de árvores mudas, a minha respiração
cortada à faca pela agudeza
de uma concha que cai 
seca no chão
num baque sólido de pássaro abatido.
A nossa casa era feita de corredores azuis.
A porta já não se abre às constelações.
Ouvem-se agora, cada vez mais perto,
os passos da noite (fria), contados
pelos minutos de uma solidão óssea.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coco Chanel & Igor Stravinsky (& Katarina)



Katarina é a tradição. Os seus vestidos carregam a memória de uma Rússia czarista e faustosa cujo orgulho espreita por entre os xailes garridos que pendura nas paredes da casa de Mlle. Chanel, desafiando-lhe(s) a frieza minimalista.
Katarina surge-nos fraca e macilenta, consumida pela tuberculose e pela relação adúltera entre Igor e Chanel que desponta, sem qualquer pudor, à sua frente. Vemo-la definhar lentamente, sob o peso da sua doença e da sua dor, tão distante da mulher-espada cuja criatividade a torna tão tentadoramente compatível com Igor.
O resultado deste duelo – entre Chanel, esguia e fulminante, e Katarina, tísica e esbranquiçada – é no entanto surpreendente. Recusando-lhe os presentes e não se deixando coleccionar, Katarina e o seu silêncio mais não fazem do que desafiar o poder que Chanel julga ter. Ainda assim, é a dignidade com que suporta o fascínio mútuo entre Igor e Chanel que faz de Katarina a verdadeira vencedora. Seria tão simples colocá-la na margem e assistir, sem peias, àquela união cósmica entre criadores colossais, mas a sua serena resistência dificulta a simpatia que normalmente se nutre pelos amores ilícitos. Mais do que um entrave, Katarina é um desassossego.
Ainda que Chanel se declare imune à doença que Igor provocou na sua esposa, é ela quem no final esmorece ao som da memória de um amor que nunca o chegou a ser. Katarina já lá não está, mas continua ali em contraponto: ambas independentes, de forma desigual, ambas fortes, em diferentes frentes, ambas simultaneamente consumidas e fortalecidas pela dependência de Igor.

Jan Kounen, Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009)

domingo, 1 de janeiro de 2012

La route chante

New Year's Resolution #1

"A little like writing or loving someone - it doesn't always feel worthwhile, but not giving up somehow creates unexpected meaning over time."

Miranda July, It Chooses You 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

The poem is you

This poem is concerned with language on a very plain level.
Look at it talking to you. You look out a window
Or pretend to fidget. You have it but you don’t have it.
You miss it, it misses you. You miss each other.

The poem is sad because it wants to be yours, and cannot.
What’s a plain level? It is that and other things,
Bringing a system of them into play. Play?
Well, actually, yes, but I consider play to be

A deeper outside thing, a dreamed role-pattern,
As in the division of grace these long August days
Without proof. Open-ended. And before you know
It gets lost in the steam and chatter of typewriters.

It has been played once more. I think you exist only
To tease me into doing it, on your level, and then you aren’t there
Or have adopted a different attitude. And the poem
Has set me softly down beside you. The poem is you.

John Ashbery, "Paradoxes and Oxymorons"

terça-feira, 15 de novembro de 2011

“A minha casa tinha um segredo escondido no fundo do coração”


Bem sei que a culpa é minha. Primeiro construo casas, depois dedico-me a decorá-las e a fazer delas casas, apenas para depois as abandonar. Ainda por cima, vou-me embora e deixo portas e janelas escancaradas, tudo à mostra à mão de semear. Nada de especial valor, no entanto. Um candeeiro partido. Um livro velho. Uma chave enferrujada. Só minudências e insignificâncias, mas que alguém leva para o aconchego da sua casa habitada e que, à luz de uma surpreendente alquimia, consegue transfigurar este meu espólio demente num tesouro cósmico refulgente.
Para mim, há-de ser sempre um candeeiro, um livro, e uma chave, ainda por cima quebrados e comidos pelo tempo. Por me terem outrora habitado (durante um dia, talvez ainda agora), estão todavia inevitavelmente dentro de mim, tal como acontece com todas as coisas que nos entram pelas fissuras do corpo – segredos escondidos no fundo do coração. Nada disto é meu, mas apenas eu conheço a história do candeeiro que se partiu, só eu sei do cheiro do livro quando o folheei pela primeira vez, ou do brilho que a chave tinha antigamente – e que bem abria ela portas e janelas.
Com o tempo, aprendemos a entrar na casa dos outros, mesmo quando abandonadas. Aprendemos a deixarmo-nos à porta, a sermos espaço para a batida do relógio (ouve, como ele bate ainda), a medirmos a espessura do silêncio e o quebranto das paredes. O que aparenta ser passividade ou receptáculo mais não é do que abandonarmo-nos à música de um rádio antigo e deixarmo-nos tocar no mais fundo e límpido que, ainda assim, persiste. É lembrarmo-nos de nós nos outros pela mão de uma música que passa a ser nossa, como se alguém nos escondesse um segredo no fundo do coração.
Na minha casa, há-de haver sempre música, mesmo no silêncio. Deve, no entanto, ser ouvida com algum cuidado – os segredos esboroam-se com tanta (demasiada) facilidade.          

sábado, 24 de setembro de 2011

Se lhe pega a poesia

Nosso é só o espinho, o estrume, a unha cheia de terra. Sabendo que me ultrapasso eu digo a você, pra celebrar nosso caso, como disse o chefe islamita em discurso ao bispo, pra celebrar a surpreendente união de maometanos e cristãos numa comunidade indonésia, “nosso amor é como bosta de búfalo, cai mas não racha.” Como vê, nem o excremento é nosso, se lhe pega a poesia. Pura graça o que nos move. Vou é chorar de tanta boa pobreza.

Adélia Prado, Solte os chachorros

terça-feira, 20 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

My own foreigness to myself


I am not fully known to myself, because part of what I am is the enigmatic traces of others.

Judith Butler, Precarious Life: the Powers of Mourning and Violence (2004)
Photo: Maura Sullivan

A craving for extraordinary incident

The most effective of these causes are the great national events which are daily taking place, and the increasing accummulation of men in cities, where the uniformity of their occupations produces a craving for extraordinary incident, which the rapid communication of intelligence hourly gratifies.

William Wordsworth, Preface to Lyrical Ballads (1800)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

...a cityscape is not made of flesh*


Photo:Vincenzo Balocchi
* Susan Sontag, Regarding the Pain of Others (I beg to differ...)