Aelita: Queen of Mars (1924)
terça-feira, 1 de maio de 2012
“Numa altura em que ainda não havia flores”
O tempo que veio
antes
rejeita beber
água.
As cinzas – uma
aquisição recente
da evolução (a
que os pinheiros
pertencem) –
viam mais
numa altura
em que ainda
não havia flores.
Desenterrou-se
uma ilha cristalizada
pelas cinzas. O
tempo
que veio depois
libertava esporos
e árvores mais
finas,
plantas sem
flores
que faziam lembrar
o tempo
transformado
em carvão.
Há um estrato de
penas
com porte de
árvore,
retrato detalhado
com mais água
de fetos
arbóreos.
Mas a cinza,
numa altura em
que
ressuscitaram os
anos,
é tectónica e
semelhante:
uma aquisição
fossilizada
no interior da
Terra.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Shelf life
Naquele dia, era pouco
o ar que se respirava
nas veias. Um limite de vozes,
sobejo freático de cores e de cifras,
recortava microscópicas raízes
de cordel. Um limite, o cheiro
dos anos. Por vezes,
eram as velas, estanques e verticais,
que articulavam gestos e sinapses.
Eram estas as letras, o ritmo seco
rasgando e quebrando a frescura
do papel. Sem a mágoa do orvalho,
renovava as simetrias do tempo
nas prateleiras e nas paredes
que gemiam a água da tua pele,
as cinzas que se libertavam do meu lápis.
quinta-feira, 29 de março de 2012
One Kind of Terror: A Love Poem
. . .
I’m the sole author of nothing
the book moves from field to field
of testimony recording
how the wounded teach each other
. . .
I’m the sole author of nothing
the book moves from field to field
of testimony recording
how the wounded teach each other
. . .
Adrienne Rich (1929 - 2012)
quinta-feira, 22 de março de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Un’en’en
Lâminas de pedra e restos
de três mil anos
feitos de pedra.
cenas esculpidas
(partidas) com arpões.
desenhos às camadas:
uma herança natural
parecida com uma casa.
a mais antiga evidência
― crânios, ossos, barbas ―
são barcos numa comunidade
a partilhar carne por carbono.
mil anos para trás
e apenas um marfim complexo
camadas de terra
como um livro aberto
domingo, 19 de fevereiro de 2012
No canto dos olhos
encontrar uma facilidade
na música. as árvores.
homem. mãe. cavalo.
é assim que eles pensam:
os nossos olhos
moem carne.
é preciso o poema
no canto dos olhos.
não é indispensável.
― à janela
uma calçada de açucenas
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
A nossa casa
A nossa casa era feita de corredores azuis.
Ao centro uma fonte, robusta e fértil,
como uma folha metálica de Gaudí.
Como era sublime, aquela nossa
escadaria em corte de rebuçado.
Como a subi de um golpe só, os
pés quebrando-se em cada degrau,
cega às paredes pintadas de barba azul.
Como passei a carregar nas mãos
todas as nuvens dobadas num novelo escuro,
os cabelos caídos sobre as entranhas
dos caminhos. A nossa casa era feita
de árvores mudas, a minha respiração
cortada à faca pela agudeza
de uma concha que cai
seca no chão
num baque sólido de pássaro abatido.
A nossa casa era feita de corredores azuis.
A porta já não se abre às constelações.
Ouvem-se agora, cada vez mais perto,
os passos da noite (fria), contados
pelos minutos de uma solidão óssea.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Coco Chanel & Igor Stravinsky (& Katarina)
Katarina é a tradição. Os seus vestidos carregam a memória de uma Rússia czarista e faustosa cujo orgulho espreita por entre os xailes garridos que pendura nas paredes da casa de Mlle. Chanel, desafiando-lhe(s) a frieza minimalista.
Katarina surge-nos fraca e macilenta, consumida pela tuberculose e pela relação adúltera entre Igor e Chanel que desponta, sem qualquer pudor, à sua frente. Vemo-la definhar lentamente, sob o peso da sua doença e da sua dor, tão distante da mulher-espada cuja criatividade a torna tão tentadoramente compatível com Igor.
O resultado deste duelo – entre Chanel, esguia e fulminante, e Katarina, tísica e esbranquiçada – é no entanto surpreendente. Recusando-lhe os presentes e não se deixando coleccionar, Katarina e o seu silêncio mais não fazem do que desafiar o poder que Chanel julga ter. Ainda assim, é a dignidade com que suporta o fascínio mútuo entre Igor e Chanel que faz de Katarina a verdadeira vencedora. Seria tão simples colocá-la na margem e assistir, sem peias, àquela união cósmica entre criadores colossais, mas a sua serena resistência dificulta a simpatia que normalmente se nutre pelos amores ilícitos. Mais do que um entrave, Katarina é um desassossego.
Ainda que Chanel se declare imune à doença que Igor provocou na sua esposa, é ela quem no final esmorece ao som da memória de um amor que nunca o chegou a ser. Katarina já lá não está, mas continua ali em contraponto: ambas independentes, de forma desigual, ambas fortes, em diferentes frentes, ambas simultaneamente consumidas e fortalecidas pela dependência de Igor.
Jan Kounen, Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009)
domingo, 1 de janeiro de 2012
New Year's Resolution #1
"A little like writing or loving someone - it doesn't always feel worthwhile, but not giving up somehow creates unexpected meaning over time."
Miranda July, It Chooses You
domingo, 25 de dezembro de 2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
The poem is you
This poem is concerned with language on a very plain level.
Look at it talking to you. You look out a window
Or pretend to fidget. You have it but you don’t have it.
You miss it, it misses you. You miss each other.
The poem is sad because it wants to be yours, and cannot.
What’s a plain level? It is that and other things,
Bringing a system of them into play. Play?
Well, actually, yes, but I consider play to be
A deeper outside thing, a dreamed role-pattern,
As in the division of grace these long August days
Without proof. Open-ended. And before you know
It gets lost in the steam and chatter of typewriters.
It has been played once more. I think you exist only
To tease me into doing it, on your level, and then you aren’t there
Or have adopted a different attitude. And the poem
Has set me softly down beside you. The poem is you.
John Ashbery, "Paradoxes and Oxymorons"
terça-feira, 15 de novembro de 2011
“A minha casa tinha um segredo escondido no fundo do coração”
Bem sei que a culpa é minha. Primeiro construo casas, depois dedico-me a decorá-las e a fazer delas casas, apenas para depois as abandonar. Ainda por cima, vou-me embora e deixo portas e janelas escancaradas, tudo à mostra à mão de semear. Nada de especial valor, no entanto. Um candeeiro partido. Um livro velho. Uma chave enferrujada. Só minudências e insignificâncias, mas que alguém leva para o aconchego da sua casa habitada e que, à luz de uma surpreendente alquimia, consegue transfigurar este meu espólio demente num tesouro cósmico refulgente.
Para mim, há-de ser sempre um candeeiro, um livro, e uma chave, ainda por cima quebrados e comidos pelo tempo. Por me terem outrora habitado (durante um dia, talvez ainda agora), estão todavia inevitavelmente dentro de mim, tal como acontece com todas as coisas que nos entram pelas fissuras do corpo – segredos escondidos no fundo do coração. Nada disto é meu, mas apenas eu conheço a história do candeeiro que se partiu, só eu sei do cheiro do livro quando o folheei pela primeira vez, ou do brilho que a chave tinha antigamente – e que bem abria ela portas e janelas.
Com o tempo, aprendemos a entrar na casa dos outros, mesmo quando abandonadas. Aprendemos a deixarmo-nos à porta, a sermos espaço para a batida do relógio (ouve, como ele bate ainda), a medirmos a espessura do silêncio e o quebranto das paredes. O que aparenta ser passividade ou receptáculo mais não é do que abandonarmo-nos à música de um rádio antigo e deixarmo-nos tocar no mais fundo e límpido que, ainda assim, persiste. É lembrarmo-nos de nós nos outros pela mão de uma música que passa a ser nossa, como se alguém nos escondesse um segredo no fundo do coração.
Na minha casa, há-de haver sempre música, mesmo no silêncio. Deve, no entanto, ser ouvida com algum cuidado – os segredos esboroam-se com tanta (demasiada) facilidade.
sábado, 24 de setembro de 2011
Se lhe pega a poesia
Nosso é só o espinho, o estrume, a unha cheia de terra. Sabendo que me ultrapasso eu digo a você, pra celebrar nosso caso, como disse o chefe islamita em discurso ao bispo, pra celebrar a surpreendente união de maometanos e cristãos numa comunidade indonésia, “nosso amor é como bosta de búfalo, cai mas não racha.” Como vê, nem o excremento é nosso, se lhe pega a poesia. Pura graça o que nos move. Vou é chorar de tanta boa pobreza.
Adélia Prado, Solte os chachorros
terça-feira, 20 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
My own foreigness to myself
Judith Butler, Precarious Life: the Powers of Mourning and Violence (2004)
Photo: Maura Sullivan
A craving for extraordinary incident
The most effective of these causes are the great national events which are daily taking place, and the increasing accummulation of men in cities, where the uniformity of their occupations produces a craving for extraordinary incident, which the rapid communication of intelligence hourly gratifies.
William Wordsworth, Preface to Lyrical Ballads (1800)
terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Só porque algum nome lhe havíamos de dar
. . . a nós o que nos ilude é esta linha de vivos em que estamos, que avança para isso a que chamamos futuro só porque algum nome lhe havíamos de dar, colhendo dele incessantemente os novos seres, deixando para trás incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de mortos para que não saiam do passado.
José Saramago, A jangada de pedra
terça-feira, 6 de setembro de 2011
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Y todo para sorpresa de nuestra ignorancia
La infancia no es un lago imperturbable
no tiene la lisura de un plato
es un valle
bordeado de irregulares riscos.
Caemos y ascendemos en ella
y todo para sorpresa
de nuestra ignorancia.
La infancia ataja
ataja todo
cualquier pelota.
Su decir, es un decir sí…
Hanni Ossott
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
The garden flew round with the angel,
The angel flew round with the clouds,
And the clouds flew round and the clouds flew round
And the clouds flew round with the clouds.
Is there any secret in skulls,
The cattle skulls in the woods?
Do the drummers in black hoods
Rumble anything out of their drums?
The cattle skulls in the woods?
Do the drummers in black hoods
Rumble anything out of their drums?
Mrs. Anderson's Swedish baby
Might well have been German or Spanish,
But that things go round and again go round
Has rather a classical sound.
Might well have been German or Spanish,
But that things go round and again go round
Has rather a classical sound.
Wallace Stevens, "The Pleasures of Merely Circulating"
Photo: Maia Flore
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Of instruction which does not become life
Modern man... has become a strolling spectator and has arrived at a condition in which even great wars and revolutions are able to influence him for hardly more than a moment... Thus the individual grows fainthearted and unsure and dares no longer believe in himself: he sinks into his own subjective depths, which here means into the accumulated lumber of what he has learned but which has no outward effect, of instruction which does not become life.
Friedrich Nietzsche, Untimely Meditations (1876: só o emprego do masculino está desactualizado, porque o argumento...)
quarta-feira, 27 de julho de 2011
De pedra
". . . quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver."
José Saramago, A jangada de pedra
sábado, 23 de julho de 2011
quarta-feira, 20 de julho de 2011
"I had no anxieties about artistic failure"
Na verdade, esquecera-se da perfeita dimensão conjugativa dos verbos, e os dedos estranhavam-lhe agora as arestas da sintaxe. A escrita encolhera-se e ficara de trazer por casa, pateta e triste, fechada num amuo de limpar os cantos. Os abismos da tarde, esses, passaram a fingir-se num vestido onde por vezes lhe dançava o Verão. Era Inverno.
A parca lucidez talvez viesse da atenção excessiva dada às coisas – toda ela das coisas, nas coisas – ou então daquele calor que subitamente se abatera sobre a terra, murchando as gentes num trigo frágil.
I’ll think about that tomorrow.
Por ora, os dias seriam passados de pé, como uma árvore sem ramos subitamente habitada por um formigueiro intravenoso.
“Para quando a escuridão?”
Como se o caminho indicado pelos joelhos fosse capaz de se desdobrar numa calçada de açucenas, tão mais sonante ao redor de si mesma.
Foto: Maura Sullivan
terça-feira, 19 de julho de 2011
Because of the alarming nature of darkness
The lighting must be better protected than now. The lamps must be enclosed in a steel grid to prevent their being damaged. Lights could be eliminated, since they are never used. However, it has been observed that when the doors are shut, the load always presses hard against them as soon as darkness sets in, which makes closing the doors difficult. Also, because of the alarming nature of darkness, screaming always occurs when the doors are closed. It would therefore be useful to light the lamps before and during the first moments of the operation.
... (1942)
quarta-feira, 8 de junho de 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
Então, como se toca?
- Não é correcto tocares assim nas coisas - dizia-lhe a mãe.
- Então, como se toca?
- Com menos força, agarrando menos. Não te envolvas tanto.
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém
Foto: Maura Sullivan
quinta-feira, 19 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
your world//out of life
no real name given.
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out:/
/learn
more
segunda-feira, 18 de abril de 2011
sábado, 2 de abril de 2011
and other / escape substances
To flourish we must absorb more than we exude.
It is normal therefore for the body to perish.
But much does drip and escape from the corporeal
tissues and we use this excess to make belief and other
escape substances.
It is normal therefore for the body to perish.
But much does drip and escape from the corporeal
tissues and we use this excess to make belief and other
escape substances.
Lisa Robertson, "Notes for Temporary Horizontal Restaurants - Note 2"
quarta-feira, 30 de março de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
quinta-feira, 17 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
Escrevo solo e digo nuvem
O rosto enfiado na terra
escrevo solo e digo nuvem.
Solo & subsolo, conluio
amoroso de asas e raízes.
O silêncio conspira,
até a viração da tarde
cessou. Já mal suspira.
Escrevo solo e o peito arde.
O rosto guardado na terra,
nada me lembra ou esquece.
Escrevo solo. Sombra
entre sombras, o dia amanhece.
Manhã de maio semeia,
não choro nem sinto.
Digo nada – acorde esvaído
num sonho indistinto.
O rosto abrigado na terra,
mal sei do lamento das folhas.
Mal sei, mal sim, mal não:
não sei onde abrigar o coração.
Carlos Felipe Moisés, “Sombra”
Os pássaros certos
Trouxe o canto
Não é claro, mãe
Mas tem os pássaros certos
Para seguir a queda dos dias
Entre o meu tempo e o teu.
Ana Paula Tavares
Imagem: Thomas Allen
quinta-feira, 3 de março de 2011
é provável que ela venha daqui a pouco. o dia foi um tecto azul celeste quase em quebranto: não é por aí que ela costuma entrar? até lá deleito-me, nas simetrias gélidas do corpo. as mãos pelos pés. dois braços (vazios, em fuga). entendo-me na longitude glaciar da cintura. tepidamente, chega ela. arfa mansa, debaixo dos lençóis, as suas mãos crescendo dentro das minhas. erguida em ganas de violino, borda-me a almofada com fio de prata. as suas mãos lembrando-me das minhas. e isto, só gente avulsa é que entende.
terça-feira, 1 de março de 2011
A light in the moon
The care with which the rain is wrong and the green is wrong and the white is wrong, the care with which there is a chair and plenty of breathing.
Gertrude Stein, Tender Buttons
Foto: Maia Flore
sábado, 26 de fevereiro de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A fundo perdido
When two people fall in love, and begin to feel that they are made for one another, then it is time for them to break off, for by going on they have everything to lose and nothing to gain.
Søren Kierkegaard
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Para uma espécie de corpo inenarrável
Minha irmã é que nasceu a falar
de um derramamento colossal
da solidão.
As mulheres, é espesso perfume lembrá-lo,
têm ângulos ausentes no que vêem e no que falam nas ocultas
nebulosas do seu corpo
o amante adivinha como um homem traído.
Assim assim mesmo: nessa penumbra de metal candente
anseia-se, decai a ansiedade
e a mulher (Ila, imã de Ilo o mundo, a minha irmã),
que é repouso vasto enfurecido
corre a apanhá-los.
ao espelho, à flor,
da cintura irrompendo como de um jardim
para uma espécie de corpo inenarrável.
Luiza Neto Jorge, “Recanto 13”
Foto: Erin Mulvehill
domingo, 13 de fevereiro de 2011
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Habito um corredor onde os relógios pararam nas 15:20. Todos os dias leio demais. A escrita vem sempre tarde, e às postas. O corredor que habito fumega de gente, homens de barba antiga, de vez em quando um rapaz daninho, muitas mulheres que por ali passam das oito às quatro, à pressa, ansiosas pelas casas com panelas de arroz agulha. Os dias pairam iguais no centro do corredor, uma bolacha redonda que se vai ruminando em volta. O caminho, esse, é só um, em frente e ao comprido. Se por acaso segue ao redor das papoilas, logo se malfada. Às vezes ataca-me como uma serpente, e mal ele sabe o quanto eu quero o seu veneno. Leio demais. A escrita não vem. Doem-me as mãos, de tanto vasculhar nas goelas dos dias. O coração bate em lugares estranhos. São três facas e uma morte à espera. Arde lenta, a tesoura nupcial, visível mas embutida no pulso. Desengane-se quem aqui procura a redenção. Perseguir ouriços mata. A escrita não vem. Valham-me os braços caravela – lá fora há-de haver vento, e as panelas têm tanto arroz.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
A Poet is the most unpoetical of any thing in existence, because he has no Identity – he is continually in for – and filling some other Body – The Sun, the Moon, the Sea and Men and Women who are creatures of impulse are poetical and have about them an unchangeable attribute – the Poet has none; no identity – he is certainly the most unpoetical of all God’s creatures.
John Keats, “A Letter to Richard Woodhouse” (1818)
(Já agora, Cf. ...)
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
domingo, 6 de fevereiro de 2011
As palavras aproximam (o silêncio ainda mais...)
Amando muito muito
ficamos sem palavras
Ana Hatherly, "As palavras aproximam"
Foto: Lukasz Wierzbowski
Foto: Lukasz Wierzbowski
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Hoje às dez horas pinto as mãos. De todas as cores, não de nenhuma. Vou lentamente afogá-las num tinteiro. Primeiro os dedos, depois as covas, as linhas e os montes, até ao pulso. Até ao osso. Frio. Há-de ser fria, a tinta, e frias, as mãos, pois deixarão de ser mãos de massa e de flanela. Hão-de ser mãos de corte. Mãos de faca. Não mais roubadas às horas de fremente urdidura. Serão invisíveis de tão visíveis e sonoras. Indistintas das paredes, do silêncio, das gerberas nessa jarra, do negrume seco da janela. De ti. Da tua pele. Todas as cores, não de nenhuma. E vão gritar, as minhas mãos. E vão pingar, estalactites cor vertigem violeta.
Hoje. De todas as cores.
Foto: Hernan Marin
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
fugiram-me um dia
os braços até ti
onde ficámos
deitados sobre a tarde
em que todas as lentidões
são bruscas apneias
as nossas mãos de barro
derreteram-se em cristalinas
placas tectónicas, a fingir
pássaros num desvio alado
ouves? somos nós
aqueles que trauteiam oceanos
enquanto falam
sobre sinos e visões periféricas
ao menos
fugiram-me um dia
os braços até ti
onde ficámos
suspensos
sobre um chapéu de criança
soprado ao delírio do vento
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
Ockham's razor
Desde os começos a Lei do Amor está escrita, mas como está, tão simples, ninguém quer.
Adélia Prado, Solte os cachorros
Há muito tempo que não sublinhava tanto um livro; agora não o posso emprestar a qualquer pessoa, é certo... A cartografia da nossa alma não se entrega assim...
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
as tardes de baloiço.
Suporta-se agora
um lento desencaixe
de clavícula. Tudo
o que nos resta
é o cansaço
encravado nas unhas
aguaceiro de cutículas
desfasamento ancestral de baleia
(presa, por fino arame, a sua ossada
numa firmeza de relíquia)
Se porventura nos prolongam os dedos
é por mera providência:
como resistir
a esta infecção na frase
a esta infecção na frase
senão pela doença?
Por enquanto plantam-se
mandrágoras debaixo da língua.
Foto: Randy Martin
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Porque escrever assim é sopa
É capaz de a psicologia ser ciência mesmo. Se for, me avisem. Tem coisas que, sabendo dizer, conferem muita importância: “a sagrada rota”, “as valquírias”. Falar comigo: seu texto é muito bom, eu não acredito, porque escrever assim é sopa. Agora, falar que é ruim, me incomoda e é capaz de eu sofrer. A poesia existe, ou é falácia, pruridos, psicologismos? Se assim for e eu descobrir, me epitafem: desgraçada, fora da graça, banida.
Adélia Prado, Solte os cachorros
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
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