terça-feira, 1 de maio de 2012

Aelita: Queen of Mars (1924)

“Numa altura em que ainda não havia flores”


O tempo que veio antes
rejeita beber água.
As cinzas – uma
aquisição recente
da evolução (a
que os pinheiros
pertencem) –
viam mais
numa altura
em que ainda
não havia flores.

Desenterrou-se
uma ilha cristalizada
pelas cinzas. O tempo
que veio depois
libertava esporos
e árvores mais finas,
plantas sem flores
que faziam lembrar
o tempo transformado
em carvão.

Há um estrato de penas
com porte de árvore,
retrato detalhado
com mais água
de fetos arbóreos.
Mas a cinza,
numa altura em que
ressuscitaram os anos,
é tectónica e semelhante:
uma aquisição fossilizada
no interior da Terra.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

(Os pés lêem uma odisseia de rastos e ruminações)
As folhas esquecem-se das árvores
esquecem-se
fogem das árvores
esquecem-se
rugem no chão. Mariposas
dobradas em árvore
esquecem-se das folhas
rugem
fogem do chão
esquecem-se
rugem nas árvores
fogem
esquecem-se do chão
esquecem-se

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Shelf life

Naquele dia, era pouco
o ar que se respirava
nas veias. Um limite de vozes,
sobejo freático de cores e de cifras,
recortava microscópicas raízes
de cordel. Um limite, o cheiro
dos anos. Por vezes,
eram as velas, estanques e verticais,
que articulavam gestos e sinapses.
Eram estas as letras, o ritmo seco
rasgando e quebrando a frescura
do papel. Sem a mágoa do orvalho,
renovava as simetrias do tempo
nas prateleiras e nas paredes
que gemiam a água da tua pele,
as cinzas que se libertavam do meu lápis.

quinta-feira, 29 de março de 2012

One Kind of Terror: A Love Poem

. . . 
I’m the sole author of nothing
the book moves from field to field


of testimony      recording
how the wounded teach each other 
. . . 


Adrienne Rich (1929 - 2012)

quinta-feira, 22 de março de 2012

In the middle of the beginning

Miranda July, It Chooses You 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Un’en’en


Lâminas de pedra e restos
de três mil anos
feitos de pedra.

cenas esculpidas
(partidas) com arpões.

desenhos às camadas:
uma herança natural
parecida com uma casa.

a mais antiga evidência
― crânios, ossos, barbas ―
são barcos numa comunidade
a partilhar carne por carbono.

mil anos para trás
e apenas um marfim complexo
camadas de terra
como um livro aberto

domingo, 19 de fevereiro de 2012

No canto dos olhos

encontrar uma facilidade
na música. as árvores.
homem. mãe. cavalo.
é assim que eles pensam:
os nossos olhos
moem carne.
é preciso o poema
no canto dos olhos.
não é indispensável.
― à janela
uma calçada de açucenas 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Shadow


Suzy Lee, Shadow (2010)

domingo, 15 de janeiro de 2012

A nossa casa

A nossa casa era feita de corredores azuis.
Ao centro uma fonte, robusta e fértil,
como uma folha metálica de Gaudí.
Como era sublime, aquela nossa
escadaria em corte de rebuçado.
Como a subi de um golpe só, os
pés quebrando-se em cada degrau,
cega às paredes pintadas de barba azul.
Como passei a carregar nas mãos
todas as nuvens dobadas num novelo escuro,
os cabelos caídos sobre as entranhas
dos caminhos. A nossa casa era feita 
de árvores mudas, a minha respiração
cortada à faca pela agudeza
de uma concha que cai 
seca no chão
num baque sólido de pássaro abatido.
A nossa casa era feita de corredores azuis.
A porta já não se abre às constelações.
Ouvem-se agora, cada vez mais perto,
os passos da noite (fria), contados
pelos minutos de uma solidão óssea.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coco Chanel & Igor Stravinsky (& Katarina)



Katarina é a tradição. Os seus vestidos carregam a memória de uma Rússia czarista e faustosa cujo orgulho espreita por entre os xailes garridos que pendura nas paredes da casa de Mlle. Chanel, desafiando-lhe(s) a frieza minimalista.
Katarina surge-nos fraca e macilenta, consumida pela tuberculose e pela relação adúltera entre Igor e Chanel que desponta, sem qualquer pudor, à sua frente. Vemo-la definhar lentamente, sob o peso da sua doença e da sua dor, tão distante da mulher-espada cuja criatividade a torna tão tentadoramente compatível com Igor.
O resultado deste duelo – entre Chanel, esguia e fulminante, e Katarina, tísica e esbranquiçada – é no entanto surpreendente. Recusando-lhe os presentes e não se deixando coleccionar, Katarina e o seu silêncio mais não fazem do que desafiar o poder que Chanel julga ter. Ainda assim, é a dignidade com que suporta o fascínio mútuo entre Igor e Chanel que faz de Katarina a verdadeira vencedora. Seria tão simples colocá-la na margem e assistir, sem peias, àquela união cósmica entre criadores colossais, mas a sua serena resistência dificulta a simpatia que normalmente se nutre pelos amores ilícitos. Mais do que um entrave, Katarina é um desassossego.
Ainda que Chanel se declare imune à doença que Igor provocou na sua esposa, é ela quem no final esmorece ao som da memória de um amor que nunca o chegou a ser. Katarina já lá não está, mas continua ali em contraponto: ambas independentes, de forma desigual, ambas fortes, em diferentes frentes, ambas simultaneamente consumidas e fortalecidas pela dependência de Igor.

Jan Kounen, Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009)

domingo, 1 de janeiro de 2012

La route chante

New Year's Resolution #1

"A little like writing or loving someone - it doesn't always feel worthwhile, but not giving up somehow creates unexpected meaning over time."

Miranda July, It Chooses You 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

The poem is you

This poem is concerned with language on a very plain level.
Look at it talking to you. You look out a window
Or pretend to fidget. You have it but you don’t have it.
You miss it, it misses you. You miss each other.

The poem is sad because it wants to be yours, and cannot.
What’s a plain level? It is that and other things,
Bringing a system of them into play. Play?
Well, actually, yes, but I consider play to be

A deeper outside thing, a dreamed role-pattern,
As in the division of grace these long August days
Without proof. Open-ended. And before you know
It gets lost in the steam and chatter of typewriters.

It has been played once more. I think you exist only
To tease me into doing it, on your level, and then you aren’t there
Or have adopted a different attitude. And the poem
Has set me softly down beside you. The poem is you.

John Ashbery, "Paradoxes and Oxymorons"

terça-feira, 15 de novembro de 2011

“A minha casa tinha um segredo escondido no fundo do coração”


Bem sei que a culpa é minha. Primeiro construo casas, depois dedico-me a decorá-las e a fazer delas casas, apenas para depois as abandonar. Ainda por cima, vou-me embora e deixo portas e janelas escancaradas, tudo à mostra à mão de semear. Nada de especial valor, no entanto. Um candeeiro partido. Um livro velho. Uma chave enferrujada. Só minudências e insignificâncias, mas que alguém leva para o aconchego da sua casa habitada e que, à luz de uma surpreendente alquimia, consegue transfigurar este meu espólio demente num tesouro cósmico refulgente.
Para mim, há-de ser sempre um candeeiro, um livro, e uma chave, ainda por cima quebrados e comidos pelo tempo. Por me terem outrora habitado (durante um dia, talvez ainda agora), estão todavia inevitavelmente dentro de mim, tal como acontece com todas as coisas que nos entram pelas fissuras do corpo – segredos escondidos no fundo do coração. Nada disto é meu, mas apenas eu conheço a história do candeeiro que se partiu, só eu sei do cheiro do livro quando o folheei pela primeira vez, ou do brilho que a chave tinha antigamente – e que bem abria ela portas e janelas.
Com o tempo, aprendemos a entrar na casa dos outros, mesmo quando abandonadas. Aprendemos a deixarmo-nos à porta, a sermos espaço para a batida do relógio (ouve, como ele bate ainda), a medirmos a espessura do silêncio e o quebranto das paredes. O que aparenta ser passividade ou receptáculo mais não é do que abandonarmo-nos à música de um rádio antigo e deixarmo-nos tocar no mais fundo e límpido que, ainda assim, persiste. É lembrarmo-nos de nós nos outros pela mão de uma música que passa a ser nossa, como se alguém nos escondesse um segredo no fundo do coração.
Na minha casa, há-de haver sempre música, mesmo no silêncio. Deve, no entanto, ser ouvida com algum cuidado – os segredos esboroam-se com tanta (demasiada) facilidade.          

sábado, 24 de setembro de 2011

Se lhe pega a poesia

Nosso é só o espinho, o estrume, a unha cheia de terra. Sabendo que me ultrapasso eu digo a você, pra celebrar nosso caso, como disse o chefe islamita em discurso ao bispo, pra celebrar a surpreendente união de maometanos e cristãos numa comunidade indonésia, “nosso amor é como bosta de búfalo, cai mas não racha.” Como vê, nem o excremento é nosso, se lhe pega a poesia. Pura graça o que nos move. Vou é chorar de tanta boa pobreza.

Adélia Prado, Solte os chachorros

terça-feira, 20 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

My own foreigness to myself


I am not fully known to myself, because part of what I am is the enigmatic traces of others.

Judith Butler, Precarious Life: the Powers of Mourning and Violence (2004)
Photo: Maura Sullivan

A craving for extraordinary incident

The most effective of these causes are the great national events which are daily taking place, and the increasing accummulation of men in cities, where the uniformity of their occupations produces a craving for extraordinary incident, which the rapid communication of intelligence hourly gratifies.

William Wordsworth, Preface to Lyrical Ballads (1800)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

...a cityscape is not made of flesh*


Photo:Vincenzo Balocchi
* Susan Sontag, Regarding the Pain of Others (I beg to differ...)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Só porque algum nome lhe havíamos de dar

. . . a nós o que nos ilude é esta linha de vivos em que estamos, que avança para isso a que chamamos futuro só porque algum nome lhe havíamos de dar, colhendo dele incessantemente os novos seres, deixando para trás incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de mortos para que não saiam do passado.

José Saramago, A jangada de pedra

terça-feira, 6 de setembro de 2011

I feel always tender in the wrong places*


Photo: Brooke Shaden
* Audre Lorde

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Y todo para sorpresa de nuestra ignorancia

La infancia no es un lago imperturbable
                     no tiene la lisura de un plato
                     es un valle
                     bordeado de irregulares riscos.

Caemos y ascendemos en ella
                     y todo para sorpresa
                                de nuestra ignorancia.

La infancia ataja
                     ataja todo
                                cualquier pelota.

Su decir, es un decir sí…

Hanni Ossott

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

The garden flew round with the angel,


The angel flew round with the clouds,
And the clouds flew round and the clouds flew round
And the clouds flew round with the clouds.

Is there any secret in skulls,
The cattle skulls in the woods?
Do the drummers in black hoods
Rumble anything out of their drums?

Mrs. Anderson's Swedish baby
Might well have been German or Spanish,
But that things go round and again go round
Has rather a classical sound.

Wallace Stevens, "The Pleasures of Merely Circulating"
Photo: Maia Flore

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Of instruction which does not become life

Modern man... has become a strolling spectator and has arrived at a condition in which even great wars and revolutions are able to influence him for hardly more than a moment... Thus the individual grows fainthearted and unsure and dares no longer believe in himself: he sinks into his own subjective depths, which here means into the accumulated lumber of what he has learned but which has no outward effect, of instruction which does not become life. 

Friedrich Nietzsche, Untimely Meditations (1876: só o emprego do masculino está desactualizado, porque o argumento...)
A noite faz-se no regresso às palavras simples, de cadência húmida e escura. Recolhe-se na hipotenusa das constelações, buscando o conforto na cratera do sono, onde habitam o sangue e a terra primeva.
Um resto de cinza amniótica.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

De pedra

". . . quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver."

José Saramago, A jangada de pedra

sábado, 23 de julho de 2011

Da alma

Ingmar Bergman, Persona (1966)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"I had no anxieties about artistic failure"

 

Na verdade, esquecera-se da perfeita dimensão conjugativa dos verbos, e os dedos estranhavam-lhe agora as arestas da sintaxe. A escrita encolhera-se e ficara de trazer por casa, pateta e triste, fechada num amuo de limpar os cantos. Os abismos da tarde, esses, passaram a fingir-se num vestido onde por vezes lhe dançava o Verão. Era Inverno.
A parca lucidez talvez viesse da atenção excessiva dada às coisas – toda ela das coisas, nas coisas – ou então daquele calor que subitamente se abatera sobre a terra, murchando as gentes num trigo frágil.
I’ll think about that tomorrow.
Por ora, os dias seriam passados de pé, como uma árvore sem ramos subitamente habitada por um formigueiro intravenoso.
“Para quando a escuridão?”
Como se o caminho indicado pelos joelhos fosse capaz de se desdobrar numa calçada de açucenas, tão mais sonante ao redor de si mesma.      

Foto: Maura Sullivan

terça-feira, 19 de julho de 2011

Because of the alarming nature of darkness

The lighting must be better protected than now. The lamps must be enclosed in a steel grid to prevent their being damaged. Lights could be eliminated, since they are never used. However, it has been observed that when the doors are shut, the load always presses hard against them as soon as darkness sets in, which makes closing the doors difficult. Also, because of the alarming nature of darkness, screaming always occurs when the doors are closed. It would therefore be useful to light the lamps before and during the first moments of the operation.

... (1942)

quinta-feira, 23 de junho de 2011


No número 51 do Boulevard Saint-Jacques

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Imitate the seamless heavens, lie
forehead lost in deepest dirt. My ear
is to your breast, I hear the grass
grow words. Its lips are yours, moving.

Tom Mandel, "Poem"

terça-feira, 24 de maio de 2011

Então, como se toca?


- Não é correcto tocares assim nas coisas - dizia-lhe a mãe.
- Então, como se toca?
- Com menos força, agarrando menos. Não te envolvas tanto.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém 
Foto: Maura Sullivan

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Pelo que me toca, responderei também, e mostrarei o que sei, pois estou cheio de palavras, e o espírito que está dentro de mim oprime-me.
O meu peito é como o vinho arrolhado, como vinho pronto a rebentar em odres novos.
Livro de Job, 32:17 – 19

terça-feira, 17 de maio de 2011

I have nothing to do with explosions*


*Sylvia Plath, "Tulips"
Foto (?)

If the past is an irreparable fact, the present can be a revisable fiction.


Harold Schweizer, Suffering and the Remedy of Art 

sábado, 7 de maio de 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011

your world//out of life

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segunda-feira, 18 de abril de 2011

sábado, 2 de abril de 2011


But then are we in order when we are most out of order.

William Shakespeare, Henry VI

and other / escape substances

To flourish we must absorb more than we exude.
It is normal therefore for the body to perish.
But much does drip and escape from the corporeal
tissues and we use this excess to make belief and other
escape substances.

Lisa Robertson, "Notes for Temporary Horizontal Restaurants - Note 2"

quarta-feira, 30 de março de 2011


To love makes one solitary, she thought.

Virginia Woolf, Mrs Dalloway

Foto: Virginia Woolf , usando um vestido da sua mãe

terça-feira, 22 de março de 2011


Poetry may or may not work out its own salvation in a man [or in a woman], but it comes only to those in dire imaginative need of it, though it may come then as a terror.

Harold Bloom, The Anxiety of Influence

quinta-feira, 17 de março de 2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

Escrevo solo e digo nuvem

O rosto enfiado na terra
escrevo solo e digo nuvem.
Solo & subsolo, conluio
amoroso de asas e raízes.

O silêncio conspira,
até a viração da tarde
cessou. Já mal suspira.
Escrevo solo e o peito arde.

O rosto guardado na terra,
nada me lembra ou esquece.
Escrevo solo. Sombra
entre sombras, o dia amanhece.

Manhã de maio semeia,
não choro nem sinto.
Digo nada – acorde esvaído
num sonho indistinto.

O rosto abrigado na terra,
mal sei do lamento das folhas.
Mal sei, mal sim, mal não:
não sei onde abrigar o coração.

Carlos Felipe Moisés, “Sombra”

Os pássaros certos



Trouxe o canto
Não é claro, mãe
Mas tem os pássaros certos
Para seguir a queda dos dias
Entre o meu tempo e o teu.

Ana Paula Tavares
Imagem: Thomas Allen

quinta-feira, 3 de março de 2011

é provável que ela venha daqui a pouco. o dia foi um tecto azul celeste quase em quebranto: não é por aí que ela costuma entrar? até lá deleito-me, nas simetrias gélidas do corpo. as mãos pelos pés. dois braços (vazios, em fuga). entendo-me na longitude glaciar da cintura. tepidamente, chega ela. arfa mansa, debaixo dos lençóis, as suas mãos crescendo dentro das minhas. erguida em ganas de violino, borda-me a almofada com fio de prata. as suas mãos lembrando-me das minhas. e isto, só gente avulsa é que entende.   

terça-feira, 1 de março de 2011

A light in the moon



The care with which the rain is wrong and the green is wrong and the white is wrong, the care with which there is a chair and plenty of breathing.

Gertrude Stein, Tender Buttons
Foto: Maia Flore

sábado, 26 de fevereiro de 2011


Porque eu também tenho uma missão na vida: anotar os lugares de areia branca, voo rasante de passarinho, todos os modos do sol. Tenho tanto que fazer no almoxarifado da humanidade.

Adélia Prado, Solte os cachorros

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A fundo perdido

When two people fall in love, and begin to feel that they are made for one another, then it is time for them to break off, for by going on they have everything to lose and nothing to gain.
Søren Kierkegaard


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011


Enlouquecidos pela dor
Cobrimo-nos com o barro das palavras

Ana Hatherly, “Utopias privadas”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Para uma espécie de corpo inenarrável


Minha irmã é que nasceu a falar
de um derramamento colossal
da solidão.

As mulheres, é espesso perfume lembrá-lo,
têm ângulos ausentes no que vêem e no que falam nas ocultas

nebulosas do seu corpo
o amante adivinha como um homem traído.

Assim assim mesmo: nessa penumbra de metal candente
anseia-se, decai a ansiedade

e a mulher (Ila, imã de Ilo o mundo, a minha irmã),
que é repouso vasto enfurecido
corre a apanhá-los.
ao espelho, à flor,
da cintura irrompendo como de um jardim
para uma espécie de corpo inenarrável.

Luiza Neto Jorge, “Recanto 13”
Foto: Erin Mulvehill

domingo, 13 de fevereiro de 2011


We’re all products of what we want to project to the world. Even people who don’t spend any time, or think they don’t, on preparing themselves for the world out there—I think that ultimately they have for their whole lives groomed themselves to be a certain way, to present a face to the world.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Habito um corredor onde os relógios pararam nas 15:20. Todos os dias leio demais. A escrita vem sempre tarde, e às postas. O corredor que habito fumega de gente, homens de barba antiga, de vez em quando um rapaz daninho, muitas mulheres que por ali passam das oito às quatro, à pressa, ansiosas pelas casas com panelas de arroz agulha. Os dias pairam iguais no centro do corredor, uma bolacha redonda que se vai ruminando em volta. O caminho, esse, é só um, em frente e ao comprido. Se por acaso segue ao redor das papoilas, logo se malfada. Às vezes ataca-me como uma serpente, e mal ele sabe o quanto eu quero o seu veneno. Leio demais. A escrita não vem. Doem-me as mãos, de tanto vasculhar nas goelas dos dias. O coração bate em lugares estranhos. São três facas e uma morte à espera. Arde lenta, a tesoura nupcial, visível mas embutida no pulso. Desengane-se quem aqui procura a redenção. Perseguir ouriços mata. A escrita não vem. Valham-me os braços caravela – lá fora há-de haver vento, e as panelas têm tanto arroz.      

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A Poet is the most unpoetical of any thing in existence, because he has no Identity – he is continually in for – and filling some other Body – The Sun, the Moon, the Sea and Men and Women who are creatures of impulse are poetical and have about them an unchangeable attribute – the Poet has none; no identity – he is certainly the most unpoetical of all God’s creatures.

John Keats, “A Letter to Richard Woodhouse” (1818)

(Já agora, Cf. ...)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011



This otherness, this
“Not-being-us” is all there is to look at
In the mirror, though no one can say
How it came to be this way. A ship
Flying unknown colors has entered the harbor.

John Ashbery, “Self-Portrait in a Convex Mirror”
Foto: Maia Flore

domingo, 6 de fevereiro de 2011

As palavras aproximam (o silêncio ainda mais...)


Amando muito muito
ficamos sem palavras


Ana Hatherly, "As palavras aproximam"

Foto: Lukasz Wierzbowski

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011


Hoje às dez horas pinto as mãos. De todas as cores, não de nenhuma. Vou lentamente afogá-las num tinteiro. Primeiro os dedos, depois as covas, as linhas e os montes, até ao pulso. Até ao osso. Frio. Há-de ser fria, a tinta, e frias, as mãos, pois deixarão de ser mãos de massa e de flanela. Hão-de ser mãos de corte. Mãos de faca. Não mais roubadas às horas de fremente urdidura. Serão invisíveis de tão visíveis e sonoras. Indistintas das paredes, do silêncio, das gerberas nessa jarra, do negrume seco da janela. De ti. Da tua pele. Todas as cores, não de nenhuma. E vão gritar, as minhas mãos. E vão pingar, estalactites cor vertigem violeta.
Hoje. De todas as cores. 

Foto: Hernan Marin

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

fugiram-me um dia
os braços até ti
onde ficámos
deitados sobre a tarde
em que todas as lentidões
são bruscas apneias

as nossas mãos de barro
derreteram-se em cristalinas
placas tectónicas, a fingir
pássaros num desvio alado

ouves? somos nós
aqueles que trauteiam oceanos
enquanto falam
sobre sinos e visões periféricas
ao menos

fugiram-me um dia
os braços até ti
onde ficámos
suspensos
sobre um chapéu de criança
soprado ao delírio do vento

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


It is enough to make you understand why most languages have a word like "soul." There are various degrees of death, and time spares us none of them. Yet something endures, for which a word is needed.


Ursula K. Le Guin, "The New Atlantis"

Foto: Sanna Lehto

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro,
Se tenho a linguagem é como se o fosse.

José Saramago, O conto da ilha desconhecida

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Quem diria que hoje serias
bloco de grés sentado
que frágil desassossega
durante a tarde
maquinalmente
a jugular distendida
à espera
de rubras papoilas cadentes

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Jean-Luc Godard, Alphaville (1965)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ockham's razor

Desde os começos a Lei do Amor está escrita, mas como está, tão simples, ninguém quer.



Adélia Prado, Solte os cachorros

Há muito tempo que não sublinhava tanto um livro; agora não o posso emprestar a qualquer pessoa, é certo... A cartografia da nossa alma não se entrega assim...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
























                                             Soy estrella y musgo

                         Me encrespo.

El poema ha llegado de mi carencia, de mi pobreza.
                                            
Hanni Ossott, “Una playa sin fin”
Foto: Joe Bonomo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011



Por enquanto acabaram-se
as tardes de baloiço.

Suporta-se agora
um lento desencaixe
de clavícula. Tudo

o que nos resta
é o cansaço
encravado nas unhas

aguaceiro de cutículas

desfasamento ancestral de baleia
(presa, por fino arame, a sua ossada
numa firmeza de relíquia)

Se porventura nos prolongam os dedos
é por mera providência:

como resistir
a esta infecção na frase
senão pela doença?

Por enquanto plantam-se
mandrágoras debaixo da língua.

Foto: Randy Martin

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Porque escrever assim é sopa

É capaz de a psicologia ser ciência mesmo. Se for, me avisem. Tem coisas que, sabendo dizer, conferem muita importância: “a sagrada rota”, “as valquírias”. Falar comigo: seu texto é muito bom, eu não acredito, porque escrever assim é sopa. Agora, falar que é ruim, me incomoda e é capaz de eu sofrer. A poesia existe, ou é falácia, pruridos, psicologismos? Se assim for e eu descobrir, me epitafem: desgraçada, fora da graça, banida.
Adélia Prado, Solte os cachorros

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011




































E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

Ana Hatherly, “Post-scriptum para Paul Celan”

sábado, 1 de janeiro de 2011


We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.

T.S. Eliot, "Little Gidding", Four Quartets


(Voltamos ao princípio: recomeça a viagem...)